Sobe para 8 o número de municípios que investiram em fundos do Banco Master

Municípios de MS fazem parte dos mais de cem regimes de previdência que fizeram aportes a fundos do banco que entrou em liquidação

MIDIA MAX ANNA GOMES


(Foto: Michael Melo/Metrópoles)

Mais três cidades de Mato Grosso do Sul entraram para lista de municípios que investiram em fundos ligados ao Banco Master, o qual entrou em liquidação no último mês de dezembro. Três Lagoas, Tacuru e Nova Alvorada do Sul somam, juntas, R$ 2,2 milhões de prejuízo.

Das três ‘novatas’, duas investiram no Brazilian Graveyard e Death Care, sendo Três Lagoas aplicando R$ 208 mil e Nova Alvorada do Sul R$ 56,9 mil. O município de Tacuru teve o maior prejuízo com aporte no fundo Texas de mais de R$ 2 milhões.

Além das cidades que investiram em fundos ligados ao Master, Mato Grosso do Sul também tem municípios que possuem investimentos diretos ao banco que são: Angélica (R$ 2 milhões), Campo Grande (R$1,2 milhão), Fátima do Sul (R$ 7 milhões), Jateí (R$ 2,5 milhões) e São Gabriel do Oeste (R$ 3 milhões).

Estados e municípios devem pagar a conta do rombo do Master na previdência. O prefeito de Itacuru, Rogério Torquetti, do PSDB, conversou com o Jornal Midiamax. O chefe do Executivo adianta que o município vai arcar com o valor e explicou a situação.

“A saúde fiscal está ok. Teve prejuízo, as ações que aplicaram caíram. Existem déficit antigo, que não é da nossa gestão e o município vai arcar.Já vem arcando com contas de irresponsáveis”, disse o prefeito.

Pelo menos cem regimes de previdência estaduais e municipais investiram em fundos ligados ao Banco Master

Conforme um levantamento da Folha com base em dados da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e do Ministério da Previdência, pelo menos cem regimes de previdência estaduais e municipais investiram em fundos ligados ao Banco Master

O cruzamento indica que três previdências estaduais e 98 municipais colocaram recursos em cinco fundos de investimento conectados ao banco de Daniel Vorcaro. Esses fundos investiram em imóveis, empresas em que a família Vorcaro tem participação, como a BR Cemitérios, e em ações da Ambipar, que perderam valor após a empresa entrar em crise financeira e deixar de pagar fornecedores e credores.

São eles o fundo de investimento em ações Texas I e os de investimento imobiliário Áquila, Osasco Properties, São Domingos e Brazilian Graveyard & Death Care.

Até agora, o que se sabia era que muitos institutos de previdência haviam investido diretamente no Master, comprando letras financeiras do banco. Dezoito órgãos estaduais e municipais compraram R$ 1,8 bilhão em letras do Master sem garantia, entre eles o Amapá e o Rio de Janeiro.

O levantamento vai além e mostra que mais de uma centena de institutos de previdência, que administram os recursos que bancam as aposentadorias de servidores públicos, foram também investidores indiretos do Master, aportando recursos por meio da compra de cotas em fundos de investimentos ligados ao banco de Vorcaro.

São municípios de diferentes portes e incluem capitais, como Goiânia. Já os estaduais são o do Amapá, do Rio de Janeiro e de Tocantins.

Antes de 2025, pouco antes de as ações da Ambipar derreterem, os aportes dos institutos de previdência nesses veículos de investimento totalizavam R$ 238 milhões. Desde então, o valor caiu 57%, principalmente por causa da desvalorização das ações da companhia de gestão ambiental, ativo detido pelo Texas I.

Para realizar o cruzamento, a Folha montou um mapa com a rede de fundos do Banco Master apontados por investigadores como fraudulentos. A teia parte dos seis identificados como suspeitos pelo Banco Central e chega a mais de 150.

A lista foi cruzada com o banco de dados do Ministério da Previdência, que registra a carteira de investimentos de todos os regimes próprios de previdência do país.

O Texas I é o que mais recebeu aportes desses entes. Em agosto de 2025, eram R$ 103 milhões. Segundo o Ministério Público Federal, o Texas foi utilizado pelo Master para inflar artificialmente o valor das ações da Ambipar.

Em setembro de 2025, a carteira valia R$ 634 milhões, sendo 93% em ações da companhia. Em dezembro de 2025, o patrimônio líquido era de R$ 122 milhões.

De acordo com documentos da investigação, o dono do Texas era o Banco Voiter, que foi comprado pelo Master e depois vendido a Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro e também investigado pela PF.

Juntos, os institutos de previdência do Rio de Janeiro e do Amapá perderam R$ 100 milhões no Texas, em razão de aportes realizados entre junho e setembro de 2025, quando as ações da Ambipar começaram a derreter rapidamente.

“A Ambipar era até então uma empresa consolidada, líder de mercado. Não tinha como prever que teria um percalço”, disse o diretor do Rioprevidência Pedro Pinheiro Guerra em outubro do ano passado, segundo ata do instituto.

A Polícia Federal prendeu o ex-presidente do instituto, Deivis Marcon Antunes, nesta terça-feira (3). Ele é acusado de obstrução de Justiça e ocultação de provas.

No caso do Amapá, o aporte foi realizado com aprovação do comitê de investimentos em setembro, apenas dez dias antes de as ações da Ambipar começarem a despencar. O investimento de R$ 30 milhões se transformou em R$ 4,2 milhões depois de dois meses.

O fundo do Amapá (Amprev) foi alvo de ação da Polícia Federal na manhã desta sexta-feira (6).

Procurada por email, a Amprev disse que os investimentos no Master representam 4,7% do total da carteira, que se sente lesada pelos maus feitos do banco e que não abre mão de ser ressarcida. O Rioprevidência não respondeu aos questionamentos da Folha.

O segundo fundo com mais aportes é o Aquilla, com R$ 83 milhões em agosto de 2025. Ele está na rede apontadas como fraudulenta do Master e foi citado na Operação Fundo Fake, de 2020, por suspeitas de “rebates” pagos a uma consultoria de investimento que assessorava institutos de previdência.

O fundo registrou prejuízo de R$ 20 milhões em 2025 e teve as contas do ano anterior reprovadas pelos cotistas.

Em dezembro de 2024, data do último balanço, o Aquilla investia em cotas do fundo São Domingos, além de dois terrenos em Queimados (RJ), um em Nova Iguaçu (RJ) e um galpão industrial em Taubaté (SP).

O maior investidor foi o instituto de previdência do Estado do Tocantins, que manteve R$ 21 milhões aplicados. O instituto foi procurado por email, mas não deu resposta.

Entre os municípios, o campeão de aportes foi Goiânia (GO). O instituto de previdência dos servidores da cidade afirma que evitou o saque para não concretizar o prejuízo, ainda contábil.

“A baixa liquidez aliada ao fraco desempenho inviabilizou o desinvestimento”, disse, em nota, o GoiâniaPrev, sobre os R$ 10 milhões que ainda detém no fundo.

“O GoiâniaPrev tem buscado alternativas para sair do fundo, acompanhando permanentemente sua situação e avaliando possibilidades juridicamente seguras. Contudo, não há autorização legal nem viabilidade técnica para a alienação das cotas, uma vez que inexistem compradores interessados e uma venda forçada resultaria na realização imediata de prejuízo relevante”, acrescentou.

O instituto disse ainda que a aplicação foi feita em gestões passadas e “que a administração atual segue monitorando a situação do fundo e avaliando alternativas jurídicas e judiciais para mitigar riscos e eventuais perdas”.

A reunião de criação do Comitê de Investimento do GoianiaPrev, em 2013, registra decisão de alocar R$ 3,5 milhões no fundo Aquilla. O consultor denunciado pelo Ministério Público Federal por receber rebates do fundo estava presente no encontro, segundo ata.

Os fundos São Domingos e Brazilian Graveyard receberam R$ 20 milhões e R$ 16 milhões, respectivamente, em aportes. Doze institutos de previdência locais aportaram recursos no São Domingos e 52, no Brazilian Graveyard.

O São Domingos está na rede de fundos apontados como fraudulentos do Master, possuindo cotas inclusive do Aquilla, que por sua vez possui cotas do São Domingos. Entre os demais ativos do São Domingos, há cotas de três empresas, sendo uma delas da família Vorcaro, a Zalin Participações.

O maior investidor foi o instituto de previdência dos servidores de Uberlândia, que tinha R$ 6,6 milhões aplicados em dezembro de 2025.

Procurado, o instituto de Uberlândia informou que as aplicações foram feitas em gestões anteriores, entre 2013 e 2016, e que os fundos estão em processo de recuperação e liquidação. “A atual administração adotou todas as providências devidas e necessárias relacionadas a essa situação, tendo denunciado essas aplicações aos órgãos de controle, regulação e fiscalização, entre eles o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Ministério Público, a Polícia Federal e o Ministério da Previdência, e entrado com processo no Poder Judiciário.”

O fundo Brazilian Graveyard é administrado pela Zion, gestora que teve Daniel Vorcaro como sócio, e comprou, em 2018, ativos de uma empresa com participação da família do ex-banqueiro, a BR Cemitérios. O Banco Master também é cotista do fundo.

Neste caso, o maior investidor foi o instituto da cidade de Paranaguá (PR), que tinha R$ 1,6 milhão no fundo até o fim do ano passado. A administração do município foi procurada pela reportagem, mas ainda não enviou posicionamento.

O Osasco Properties foi o fundo que menos recebeu, com R$ 5 milhões em investimentos de regimes públicos de previdência.

Aportes nesse e em outros fundos conectados renderam prejuízo de R$ 5,1 milhões ao Iprem de Santo Antônio de Posse (SP), segundo sentença judicial. A Prefeitura de Santo Antônio de Posse foi procurada por e-mail, mas ainda não enviou posicionamento.

A Folha procurou a RJI Corretora, administradora do Aquilla e do São Domingos, a Planner, administradora do Osasco Properties e o Master, responsável pelo Texas I e pelo Brazilian Graveyard.

A Planner foi a única que respondeu. Ela disse que “não possui, nem jamais possuiu, qualquer vínculo com o Banco Master, seja de natureza societária, comercial, operacional, contratual ou de negócios”.

“Não há participação acionária, relação de crédito, prestação de serviços ou qualquer outro tipo de relacionamento entre a Planner Investimentos e o Banco Master”, acrescentou.

A empresa afirmou que “opera em estrita observância às normas que regem o mercado financeiro, com elevados padrões de governança, compliance e gestão de riscos”.



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