Política
MPMS ‘sufoca’ cofres públicos ao pagar salários acima de R$ 350 mil a 19 membros em um mês
MIDIA MAX VINICIOS ARAUJO
Enquanto mais de 50 mil habitantes de Mato Grosso do Sul amargam os desafios de viver abaixo da linha da pobreza — cujo sustento vai até R$ 218 mensais —, membros do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) receberam valores astronômicos apenas no mês de dezembro passado. Foram 19 integrantes do órgão com salários acima de R$ 300 mil.
Mesmo com salário legal limitado a R$ 46.366,19, os procuradores e promotores de Justiça de Mato Grosso do Sul desconsideram o teto constitucional e levam para casa valores inflados por penduricalhos.
No último mês de 2025, esses adicionais sufocaram os cofres públicos em mais de R$ 17.003.106,53, uma média individual de R$ 72.974,71 de “bônus” aos rendimentos já vultosos da elite do funcionalismo de MS. Ao todo, estão listadas 233 autoridades do órgão.
Para se ter uma ideia, os valores pagos em assistência médica aos membros do MPMS chegaram a R$ 1.361.662,71 naquele mês, mesmo período em que pacientes da Santa Casa de Campo Grande estiveram à mercê da sorte devido à falta de médicos e greve de funcionários diante do atraso de pagamento dos trabalhadores.
A média gasta para subsidiar a segurança de saúde do alto clero do órgão foi de R$ 5.844,05. Enquanto isso, a expectativa do Governo do Estado é de aplicar, na saúde pública, cerca de R$ 914 por habitante, ao longo de todo o ano de 2026.
Ranking dos R$ 300 mil
Apesar de descumprir norma nacional de transparência pública, sendo acusado de ser um dos órgãos com sistema de acesso à informação mais precarizados do país, o Jornal Midiamax cruzou dados existentes em diversas planilhas, resultando no levantamento abaixo. Assim, é possível conferir a relação das autoridades que mais receberam no mês de dezembro de 2025.
Com holerite de R$ 351,7 mil, o chefe da 21ª Procuradoria de Justiça, Silasneilton Gonçalves, consagrou o título de maior pagamento do mês. Em rendimentos, foram R$ 232.212,49, somados a R$ 119.533,68 de penduricalhos, incluindo R$ 22,6 mil de licença-prêmio e outros R$ 37.352,49 em abono pecuniário.
Abaixo de Silasneilton, os membros com os ganhos na casa dos R$ 300 mil foram:
Filomena Aparecida Depolito Fluminhan: R$ 348.383,62;
Romão Avila Milhan Junior (Procurador-Geral de Justiça): R$ 336.277,89;
Lenirce Aparecida Avellaneda Furuya: R$ 328.817,60;
Gevair Ferreira Lima Júnior: R$ 321.759,16;
José Arturo Iunes Bobadilla Garcia: R$ 318.320,88;
Lucienne Reis d’Avila: R$ 318.196,09;
Nilza Gomes da Silva: R$ 316.554,02;
Humberto de Matos Brittes: R$ 315.760,79;
Renata Ruth Fernandes Goya Marinho: R$ 315.230,68;
Irma Vieira de Santana e Anzoategui: R$ 311.473,39;
Paulo Roberto Gonçalves Ishikawa: R$ 308.929,28;
Jorge Ferreira Neto Júnior: R$ 308.582,42;
Adhemar Mombrum de Carvalho Neto: R$ 307.567,82;
Antonio Siufi Neto: R$ 306.152,18;
Assessoria Especial no gabinete do PGR (não identificado): R$ 304.604,33;
José Aparecido Rigato: R$ 302.545,07;
Sérgio Fernando Raimundo Harfouche: R$ 302.363,24;
Silvio Cesar Maluf: R$ 302.340,64.
Além desses pagamentos, outros mais de cem membros do MPMS levaram para casa, no fim do ano, muito além do teto constitucional, com contracheque superior a R$ 200 mil.
Os menores valores pagos foram aos promotores substitutos recém-empossados. Eles ingressaram no órgão no início do mês de novembro e já garantiram R$ 92.285,22 de pagamento em dezembro. No holerite, ficaram discriminados R$ 65.969,52 de remuneração bruta, somados a R$ 26.315,70 em benesses exclusivas à elite do órgão.
Questionado, o MPMS diz que “não houve pagamento do valor“ citado pelo próprio Portal da Transparência — e que podem ser consultador por qualquer cidadão NESTE LINK. Ao negar os dados que estão comprovados no precário sistema de acesso à informação, a assessoria de comunicação reafirma o que a organização Transparência Brasil já havia denunciado contra a gestão do órgão.
Nota ‘zero’ em transparência
Desde fevereiro de 2024, o MPMS dificulta a raspagem de dados para esconder o nome de seus membros na relação de pagamentos acima do teto constitucional. O desrespeito à ordenança pública é justificada sob alegação de necessidade de proteção dos dados dos promotores e procuradores que faturam cerca de 100x mais do que a média do trabalhador sul-mato-grossense, financiador dos cofres públicos.
“Ao contrário do que alega o MP-MS, a divulgação nominal da folha de pagamento se enquadra em uma das hipóteses de tratamento de dados pessoais (o que inclui a divulgação) permitidas pela LGPD. O art. 7º, inciso II do texto estabelece que o tratamento pode ser feito se necessário ao “cumprimento de obrigação legal ou regulatória” por quem detém os dados”, afirma a Transparência Brasil.
Em 2024 e 2025, o MP de Mato Grosso do Sul, sob a chefia de Romão Ávilla Romão Júnior — um dos que faturaram acima de R$ 300 mil em dezembro passado —, apresentou os piores índices em transparência dos salários. O apagão de dados iniciou na gestão do ex-PGJ, hoje adjunto no comando do órgão, Alexandre Magno Benites de Lacerda, que foi nomeado como conselheiro do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) e ocupará cadeira que será deixada pelo colega — o também ex-PGJ Paulo Passos.
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