Presidente da Santa Casa comprou casa de R$ 400 mil ‘em espécie’ e sócio pagou apartamento de R$ 350 mil em moeda corrente, diz Gecoc

INVESTIGA MS WENDELL REIS


Escrituras levantadas pelo Gecoc mostram quatro compras de imóveis de Alir Terra Lima e Paulo da Cruz Duarte entre 2021 e 2025; segunda compra do advogado, de R$ 670 mil, foi parcelada em R$ 50 mil por mês a partir de abril de 2025, quando as empresas dele passaram a receber R$ 557 mil mensais do plano de saúde do hospital.

Em 24 de janeiro de 2025, a presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, comprou uma casa na Rua João Pessoa, 51, por R$ 400 mil declarados, “pago no ato, em espécie da moeda corrente nacional”, conforme a escritura lavrada no 3º Serviço Notarial da Capital. Um ano e meio antes, em 20 de junho de 2023, o advogado Paulo da Cruz Duarte, sócio dela em um escritório de advocacia e dono das empresas que passaram a operar o plano Santa Casa Saúde, havia comprado com a esposa um apartamento no Edifício Pernambuco por R$ 350 mil, “integralmente pago em moeda corrente nacional”.

As duas escrituras estão entre as quatro que o Ministério Público Estadual anexou ao pedido que resultou na Operação Antidotum, deflagrada na sexta-feira (11). Para o Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), as compras “demonstram evolução patrimonial relevante e contemporânea à estruturação do núcleo empresarial e às contratações” da operadora com as empresas de Paulo Duarte, que receberam R$ 9,6 milhões só em 2025. 

A promotoria ressalva que a documentação cartorária “ainda está em análise” e que o cruzamento entre as contas pessoais, as contas das empresas e os pagamentos dos imóveis “é indispensável para identificar a origem dos recursos”. O MP não afirma, por ora, de onde saiu o dinheiro. Alir está presa preventivamente; Paulo Duarte foi afastado das funções. Nenhum dos dois foi denunciado ainda.

Prosperidade 

A primeira compra de Paulo da Cruz Duarte, segundo o MP, tem data significativa. Em 1º de fevereiro de 2023, mesmo mês em que Alir assumiu a presidência do hospital, ele constituiu a Duarte Soluções Creditícias Ltda. (que também aparece nos autos como Duarte Soluções em Saúde). 

Em 20 de junho, comprou o apartamento no Edifício Pernambuco, na rua de mesmo nome, por R$ 350 mil em dinheiro. Em 1º de agosto, a Duarte Soluções assinou o primeiro contrato identificado com a Santa Casa Saúde.

A segunda compra é de 20 de março de 2025: o apartamento no Edifício Tom Jobim, no Santa Fé próximo ao Shopping Campo Grande, por R$ 670 mil declarados. O pagamento foi ajustado em doze parcelas mensais de R$ 50 mil a partir de 30 de abril de 2025, mais duas parcelas finais em abril e maio de 2026.  

É o mesmo mês em que, segundo o Conselho Fiscal, a operadora começou a pagar à Duarte Soluções R$ 557 mil mensais por “execução técnica para abertura da filial de Dourados”, dez parcelas, R$ 5,57 milhões até dezembro, sem que o contrato tenha sido apresentado ao conselho. 

“Essa segunda aquisição ocorreu no mesmo período em que as empresas de Paulo Duarte passaram a receber os pagamentos mais expressivos da Santa Casa Saúde”, escreve o MP.

Dinheiro vivo

No caso de Alir, as duas escrituras contam histórias diferentes. Em 27 de julho de 2021, antes de chegar à presidência, ela comprou um imóvel residencial na Rua Luciana, Jardim Autonomista, por R$ 450 mil. A escritura individualiza o pagamento em três transferências bancárias, R$ 22.500, R$ 31.500 e R$ 396.000, todas rastreáveis.

A compra de 24 de janeiro de 2025 não deixa esse rastro. A casa da Rua João Pessoa, bairro Monte Carlo, foi paga “no ato, em espécie”, segundo a escritura. 

Àquela altura, aponta o MP, Alir presidia a Santa Casa havia quase dois anos, tinha nomeado Beatriz Lemes da Silva para administrar a operadora e era dona de sala 403 no Evidence Office Prime, o endereço usado por sete empresas de Paulo Duarte que prestavam serviço ao plano.

A quebra de sigilo bancário, ainda segundo a representação, mostrou que Alir “recebeu mais de R$ 200.000,00 provenientes diretamente de Paulo da Cruz Duarte” e que a conta dela tinha “numerosos depósitos sem identificação de origem”, que “não foram declarados em seu imposto de renda”. Os promotores não detalham datas nem valores desses depósitos na peça.

“Está acaloradíssima dentro do hospital”

A evolução patrimonial dos dirigentes já era assunto dentro da Santa Casa antes da operação. Em áudio de 14 de fevereiro deste ano, recuperado do celular do diretor administrativo Alessandro Dias Junqueira, ele conta que o presidente do Conselho Fiscal, Antonio Urban Filho, viu um carro de R$ 350 mil na vaga de garagem e ligou para Alir: “Se ele não tiver outra fonte de renda, ele está roubando a Santa Casa”. O carro era do diretor financeiro, Rinaldo Hakme Romano. “O pau está torando na Santa Casa ainda sobre esse carro. Eu não vou poder comprar a Rampage, não vou poder trocar de carro agora. E ainda tem mais, tem a conversa do apartamento. Está, assim, acaloradíssima dentro do hospital isso”, diz Alessandro. O áudio não identifica de quem é o apartamento.

Para o MP, a fala mostra que o diretor “acompanhava de perto a repercussão patrimonial envolvendo os dirigentes, sabia que havia vigilância concreta sobre a evolução de bens e modulava sua própria conduta patrimonial em razão desse contexto”, o que, para a promotoria, justifica analisar também a movimentação financeira dele.

A juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, não decretou o bloqueio dos imóveis na decisão que autorizou as prisões e as buscas. Registrou que a “ampliação patrimonial” de Alir e Paulo Duarte “ocorreu paralelamente às contratações e aos pagamentos” e incluiu entre os objetivos da busca e apreensão o “rastreamento patrimonial” dos investigados. Ao tratar do conjunto de indícios, lembrou que operações em espécie a partir de R$ 50 mil são passíveis de comunicação ao Coaf e que “a repetição de operações em montante imediatamente inferior a esse limite constitui elemento relevante”, observação feita a propósito dos saques nas contas da Redvalue, a outra frente da investigação.



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