Cotada para o governo, Tebet aposta em eleitorado feminino e menor polarização contra Tarcísio em SP

PAUTA DIáRIA


A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet (MDB), confirmou nesta sexta-feira (30) que deixará o primeiro escalão do governo federal até o dia 30 de março. A decisão faz parte da preparação para o ciclo eleitoral de 2026, embora a ministra ainda não tenha definido se disputará o governo de São Paulo ou uma vaga no Senado.

Durante evento no Insper, na capital paulista, Tebet afirmou que já tratou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre uma possível candidatura ao Senado, mas ressaltou que o cenário para os governos estaduais segue em aberto e depende de articulações políticas.

Apesar de ser frequentemente citada como possível adversária do atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a emedebista demonstrou cautela ao comentar a disputa no estado. Segundo ela, o campo governista já conta com nomes de peso capazes de levar a eleição ao segundo turno, como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o vice-presidente Geraldo Alckmin.

“Eu entendo que São Paulo tem dois nomes de peso relevantes, importantes, que têm condições de performar muito bem e de levar inclusive [as eleições] para um segundo turno, que são o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o vice-presidente Geraldo Alckmin”, afirmou.

O cenário, no entanto, é marcado por incertezas. Haddad tem sinalizado resistência em retornar à disputa estadual, enquanto Alckmin indica preferência por manter a aliança com Lula em uma eventual campanha presidencial.

Análise e viabilidade eleitoral
Para a cientista política Lilian Sendretti, doutoranda pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), a viabilidade de Tebet em São Paulo passa pela aceitação do eleitorado progressista e por uma possível estratégia inédita do Partido dos Trabalhadores (PT) no estado.

“Se a gente estiver falando do eleitorado petista, acho que sim [há aceitação], porque a rejeição ao Tarcísio é muito grande entre os petistas, entre o eleitor progressista de modo geral”, analisa.

Segundo a pesquisadora, embora o PT nunca tenha apoiado um candidato de fora da legenda para o governo paulista, o enfrentamento ao bolsonarismo pode levar a uma mudança de postura. Ela cita o exemplo do próprio Geraldo Alckmin, hoje vice-presidente, como prova de que antigas rivalidades podem ser superadas em nome de um projeto político comum.

“Quando a gente pensa em termos de conflito político, a maior oposição é o bolsonarismo. A Tebet já demonstrou lealdade desde antes de integrar o governo Lula, inclusive durante a campanha de segundo turno. Isso pesa a favor dela”, avalia.

Na visão de Sendretti, Tebet teria boa aceitação tanto no centro quanto na esquerda. “Mesmo entre aqueles que poderiam aceitá-la menos, enquanto petistas, a rejeição ao Tarcísio é maior. Isso acaba empurrando o eleitor para uma candidatura progressista”, afirma.

O fator Haddad e o eleitorado feminino
A indefinição sobre o papel de Fernando Haddad segue como um dos principais pontos do tabuleiro eleitoral. Apesar de lideranças petistas defenderem seu nome, o ministro tem concentrado esforços na gestão econômica e na coordenação da reeleição de Lula.

“Até o momento, o que a gente sabe é que ele gostaria de participar somente da coordenação da reeleição. Mas tudo pode mudar se houver um pedido direto do presidente Lula, o que teria peso político e pessoal na decisão”, observa a pesquisadora.

Caso Tebet venha a enfrentar Tarcísio de Freitas, Sendretti destaca que o fator de gênero pode ser um diferencial. São Paulo nunca teve uma governadora mulher, e a presença feminina no pleito pode dificultar uma campanha mais agressiva por parte do atual governador.

“O Tarcísio teria mais dificuldade em construir ataques a uma candidata mulher. Isso conta a favor da Tebet, somado ao carisma e à trajetória política que ela construiu”, conclui.

Tebet, que já recebeu convites do PSB no passado, negou que uma mudança partidária esteja em discussão no momento. “Não discutimos mudança partidária, não discutimos cargos, não discutimos nem Governo do Estado de São Paulo”, afirmou.

Por ora, a ministra segue focada na agenda do Planejamento. Segundo ela, após o ciclo eleitoral, haverá maior espaço para avançar no controle dos gastos públicos, tema central do observatório lançado nesta sexta-feira.

Sendretti lembra ainda que o PT nunca venceu uma eleição para o governo paulista, em grande parte devido ao forte antipetismo no interior do estado. “Nesse sentido, uma candidatura que não seja do PT, mas alinhada ao campo progressista, como a da Tebet, seria uma novidade e pode alterar a lógica da disputa”, conclui.



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