Saúde
Risco do vírus Nipah chegar ao Brasil existe, mas a chance de surto é baixa
Após alerta global por casos na Índia, infectologista explica transmissão, sintomas e prevenção
CAMPO GRANDE NEWS GUSTAVO BONOTTO E VIVIANE OLIVEIRA
O risco de o vírus Nipah chegar ao Brasil existe por causa das viagens internacionais, mas a chance de disseminação no país é considerada baixa, segundo o infectologista Julio Croda, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), em entrevista por telefone ao Campo Grande News, nesta terça-feira (28).
O alerta ocorre após a confirmação de um surto no estado de Bengala Ocidental, na Índia, com registro de casos entre médicos e enfermeiros e a adoção de quarentena para pessoas que tiveram contato com infectados. A situação levou países vizinhos a reforçar medidas preventivas em aeroportos, em um cenário que reacendeu a preocupação internacional.
De acordo com Croda, apesar do risco de entrada do vírus por um viajante infectado, o padrão de transmissão reduz a possibilidade de surtos amplos. “O Nipah é transmitido principalmente por secreções e gotículas. Ele não é transmitido pelo ar, o que diminui muito o risco de contaminação quando comparado a doenças como Covid, influenza e sarampo', explicou.
O vírus tem como principal reservatório morcegos frugívoros, comuns em várias regiões da Ásia. A infecção ocorre, em geral, por contato direto com esses animais ou pela ingestão de frutas contaminadas por saliva, urina ou fezes. Em alguns países, como Bangladesh e Índia, surtos recentes também se relacionam ao consumo de seiva de tamareira contaminada.
A transmissão entre pessoas existe, mas ocorre com baixa frequência. Segundo Croda, ela depende de contato íntimo com secreções e costuma se concentrar em ambiente hospitalar. “A transmissão humano a humano é rara e, quando acontece, ocorre principalmente dentro dos hospitais, por contaminação nosocomial, muitas vezes associada à falta de equipamentos de proteção individual', afirmou.
O período de incubação do vírus varia de três a 14 dias após o contato. Os primeiros sintomas incluem febre, dor de cabeça, tosse e vômitos. Em quadros mais graves, a doença pode evoluir para pneumonia ou atingir o sistema nervoso central, com inflamação no cérebro, conhecida como encefalite.
A taxa de letalidade do vírus Nipah varia entre 40% e 75%, conforme o surto e a capacidade de resposta dos serviços de saúde. Não há vacina nem medicamento específico, e o tratamento se baseia em cuidados de suporte.
Para o infectologista, o principal desafio é a detecção precoce de casos importados. “É importante fazer vigilância ativa de viajantes que vêm da Índia, especialmente das regiões afetadas. Pessoas com febre associada a sintomas respiratórios ou neurológicos precisam ser investigadas e testadas por PCR', disse.
Croda também defendeu que o país mantenha hospitais de referência preparados para atendimento e isolamento dos casos suspeitos. “Com diagnóstico rápido, uso adequado de equipamentos de proteção e isolamento, o risco de disseminação fica bastante reduzido', concluiu.
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